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2009-07-15 | A RELAÇÃO MENTE/CORPO E A ADAPTAÇÃO AO TREINO
Porque a maior parte dos fisiologistas do esforço centram a sua atenção nos músculos e na fisiologia sistêmica, temos tendência para tratar o cérebro como uma misteriosa caixa negra, mas essa atitude está começando a mudar. É necessário reconhecer que precisamos aprender mais sobre o impacto dos exercícios sobre o nosso cérebro, e o impacto da atividade cerebral também em nossa atividade física.
Neste texto é exosto algum do material proveniente de 25 anos de trabalho do Dr.Heinz Liesen. Ele foi médico da seleção nacional alemã de futebol a qual, apesar das suas modestas capacidades, com ele alcançou a final nas Copas do Mundo em 86 e 90. Foi também médico da equipe de Hóquei de Campo e da equipe do Combinado Nórdico em Esqui. Hoje, centra-se de novo na medicina preventiva. O conhecimento que adquiriu, resultante do acompanhamento de determinados atletas (e de pessoas ativas não atletas) durante vários anos, com extensa monitorização da reação imunológica, dos esquemas de treino, do desempenho físico e até da localização da atividade das ondas cerebrais, é único nessa área. Algum do material exposto baseia-se também no crescente corpo de conhecimentos produzido principalmente nos Estados Unidos e na Alemanha.

O Cérebro É o Centro do Desempenho Desportivo

Depois de tanto se falar de coração e músculos, pode parecer uma contradição dizer isto, mas parece que é a realidade: O cérebro, ao mesmo tempo que desencadeia todos os nossos movimentos voluntários, reage à tensão criada pelo próprio exercício. E, até certo ponto, a tensão aparece como uma qualidade onipresente. O cérebro reage à tensão provocada pelo trabalho, condução, treino, competição.

O impacto sensível desta tensão, pode-se revelar de várias maneiras:

Níveis de Catecolamina em Repouso - O treino adequado tende a causar a predominância parasimpática (repouso e recuperação) no atleta bem preparado. Contudo, se os esforços do treino forem demasiados, os níveis da hormona simpática (a da luta ou projeção) mantêm-se altos mesmo quando em repouso, o que é sinal de recuperação incompleta. Uma manifestação exterior desta alteração é um ritmo cardíaco elevado em repouso, embora existam outros sinais mensuráveis mais sensíveis que este. Outra característica do ritmo cardíaco em repouso é um certo grau de irregularidade: Existe uma variação considerável nas batidas, podendo medir-se pequenas variações do intervalo entre batidas sucessivas. É um fato que esta variação diminui, perante a expectativa duma tarefa, pois o estímulo simpático aumenta.

Razão Testosterona/Cortisol – A Testosterona é um hormônio anabólico, que desempenha um papel na regeneração e reparação do músculo e dos tecidos. O Cortisol é uma hormona catabólica que estimula a desagregação dos tecidos. Por exemplo, o nível de cortisol é elevado em situações de fome extrema, quando o tecido muscular é catabolisado para se converter em energia. Os níveis de testosterona tendem a ser maiores em indivíduos com elevada capacidade de treino duro e rápida recuperação (e naqueles que a recebem através de injeção). Os níveis de testosterona são naturalmente mais baixos nas mulheres do que nos homens (Cerca de 10 vezes menos). Em muitos estudos, a razão testosterona/ cortisol mostrou ser um indicador dum estado de estagnação e sobrecarga de treino em atletas de alta competição.

A Função do Sistema Imunológico – Sistema Imunológico é uma designação simples dum sistema celular adaptável interno, que responde à invasão de substâncias estranhas e as elimina, ou minimiza a sua capacidade de replicar. A resposta do sistema Imunológico a uma invasão estranha pode-se modificar, na sua rapidez e na sua magnitude. O exercício cria mudanças drásticas e permanentes na função do sistema Imunológico. O exercício violento mostrou causar uma depressão transitória de certos componentes do sistema Imunológico, criando uma janela de susceptibilidade à infecção de várias horas após um esforço extremo. A tensão de um exercício intenso tem um efeito bifásico na função imunológica. Isso demonstra-se de vários modos:

Primeiro, a incidência das infecções do trato respiratório superior (ITRS) diminui com o exercício moderado, mas aumenta nos atletas em treino intenso. Em segundo lugar, a amplitude da resposta imunológica a um determinado antigêno diminui em atletas sobrecarregados. Existem equipamentos de diagnóstico que permitem a aplicação controlada de 7 alergênios na pele do antebraço. A área total das consequentes reações da pele dão a medida quantitativa do vigor do sistema Imunológico em determinado indivíduo. Estas medições são de rotina em muitas equipes nacionais na Alemanha e na Escandinávia.

Talvez a informação mais interessante que se possa fornecer seja que: Parece que a mente interage com o sistema Imunológico e modula a resposta imunológica. Isto foi rotundamente demonstrado pelo Dr. Liesen. Comparando o sangue extraído imediatamente antes, e 1 hora depois de um diagnóstico inesperado, mas causador de tensão, observou mudanças bem evidentes na capacidade de resposta dos leucócitos sanguíneos. Esta modelação mental da função imunológica aparenta envolver a libertação, pelo cérebro, de compostos químicos específicos imuno-modeladores, em resposta ao estímulo emocional.

Perfis Psicológicos – Foram desenvolvidos vários instrumentos de pesquisa que parecem ser sensíveis às mudanças emocionais que acompanham ou precedem as modificações psicológicas e de desempenho associadas a um estado de sobrecarga. Esses instrumentos vão detectar a corrente disposição, a ansiedade, a qualidade do sono, o desejo de treinar, etc.

O Que É O Exercício Físico

Abaixo está o modelo apresentado pelo Dr. Liesen, baseado na sua experiência e investigação, ilustrando o potencial dos efeitos positivos e negativos do exercício físico na saúde e no alto desempenho.

No mundo atual do desporto de alta competição, a verdadeira limitação à melhoria contínua deslocou-se, da quantidade do treino, para a capacidade de recuperação da mente e corpo. Muitos atletas da elite treinam 50 semanas por ano, por vezes 3 – 4 horas por dia. Quando esta violenta pressão física se combina à tensão das cada vez mais frequentes competições para satisfazer patrocinadores e comunicação social, e com a tendência para retirar tempo ou interesse ás distrações mentalmente criativas, os resultados são desastrosos. O que de fato vemos, se observarmos atentamente, é a súbita aparição de figuras extremamente talentosas, seguida, dois ou três anos mais tarde, do declínio das suas capacidades, ou mesmo da sua retirada de cena. Por de trás desses esgotamentos precoces está geralmente um treinador ou uma secção desportiva demasiadamente exigente.

O sucesso das equipes e dos atletas individuais dirigidos pelo Dr. Liesen não foi devido a uma intensificação do seu treino. Pelo contrário, a aplicação cuidada de mais treino “de recuperação” de baixa intensidade e até mesmo dias de descanso total foi a chave.

Um jornal citou o atleta Norueguês Bjorn Dahlie (campeoníssimo em esqui cross contry): ”Um dia sem treino é um dia sem valor”. Três semanas depois, ele teve de se retirar do campeonato nacional, por doença. O descanso é importante.

Importa também o modo como descansamos: Por exemplo, O Dr. Liesen observou que os atletas de futebol tinham tendência para, entre as sessões de treino, se limitarem a refastelar-se e a ver televisão, ficando as suas mentes quase num estado de "vegetal". Para lhes aumentar a criatividade mental, levou os membros das suas equipes a visitar museus, a estudar línguas, a fazer peças de artesanato, isto, no auge dos treinos e da Copa Mundial. Os resultados foram excepcionais: Modestas equipas alemãs chegaram à final do Mundial em 1986 e 1990 (esgotando só aí as suas capacidades, em ambos os casos). O seu sucesso deveu-se, em larga medida, ao fato de se terem mantido saudáveis e fortes ao longo de todo o campeonato.

Quando observamos o modelo acima, vemos que o nível de exercício e a atividade mental criativa são, ambos, potenciais fctores de bom desempenho e boa forma física. Quando construímos um programa de treino, temos que considerar a mente assim como o corpo.

O atleta típico não treina o mesmo volume e intensidade que os atletas de elite. Então, poderemos pensar, “O excesso de treino não me afeta, porque só treino 12 horas por semana”. Mas, todos temos uma profissão, filhos pequenos, horas de agonia no trânsito, contas a pagar, todos os dias; devemos então perguntar-nos: Todas as nossas sessões de treino são intensas? Será que cada corrida que fazemos se tornou numa prova de competição? Outras das nossas atividades de tempos livres desapareceram? Quando não estamos a treinar, estamos a pensar no treino...? Se respondeste sim à maior parte destas perguntas, há que reavaliar o seu programa de treinos e o modo como encara os exercícios.

A estratégia a longo prazo -

Na Escola, na Faculdade, no Trabalho, no mundo inteiro, o tempo está sempre a contar.
Os atletas sentem a pressão para atingir o seu máximo “já nesta temporada”. Em muitos casos, isso conduz a ciclos anuais que não têm em conta o sequente desenvolvimento do atleta "depois". Mas, um atleta maduro, deve sempre lembrar-se de que está nesta jogada para o longo prazo: o treino é um processo prolongado de aprendizagem e de aperfeiçoamento físico e técnico. As medalhas vão para os que conseguem combinar talento e paciência, intensidade com inteligência.
Em última análise, independentemente do nível de desempenho de cada um, se atleta ou não, o prazer da atividade física é mais doce quando serve para apurar a nossa vida como um todo, não apenas a nossa performance!


Fonte:
TEXTO DE AUTORIA DE STEPHAN SEILER
EXTRAÍDO DO SITE home.hia.no/~stephens/brnbody.htm





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